
Representantes da Pastoral Afro-Brasileira (PAB) da Arquidiocese de Feira de Santana participaram, entre os dias 5 e 7 de junho, da 10ª Romaria Quilombola, realizada em Bom Jesus da Lapa, na Bahia. O evento reuniu comunidades quilombolas de diversas regiões do país em uma programação marcada pela fé, memória, formação e fortalecimento da luta por direitos.
Com o tema “Seminário da Alforria: 30 anos da CONAQ, reafirmar a luta, celebrar as conquistas”, a programação contou com momentos celebrativos, formações, debates, reflexões, atividades culturais e celebrações religiosas. A articulação do encontro foi realizada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e Coordenação Estadual de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CEAQ), em parceria com diversas entidades que atuam junto às comunidades tradicionais.
A delegação arquidiocesana foi composta por cerca de 100 pessoas de 20 comunidades quilombolas da Arquidiocese de Feira de Santana, que seguiram para o santuário em três ônibus, sob o acompanhamento do padre Ibrahim Muinde, referencial da Pastoral Afro-Brasileira.
A Romaria Quilombola tem origem em um acontecimento histórico datado em 13 de junho de 1888, um mês após a promulgação da Lei Áurea. Na ocasião, negros recém-libertos realizaram uma peregrinação até o Santuário do Bom Jesus da Lapa para agradecer pela conquista da liberdade. Conhecida como Romaria dos Pretos ou Encontro da Alforria, a caminhada tornou-se um símbolo da resistência e da busca por dignidade do povo negro.
Segundo registros históricos, os peregrinos levavam moedas que haviam economizado ao longo dos anos para comprar suas cartas de alforria. Já livres, decidiram ofertar o dinheiro ao santuário em sinal de gratidão. O metal recolhido foi utilizado na fundição dos sinos das torres da igreja, que teriam sido instalados com a participação dos próprios libertos.

Um dos momentos mais simbólicos da romaria acontece durante a procissão em direção ao santuário. Ao chegarem à esplanada, os sinos são tocados em memória da chegada dos negros e negras que participaram da histórica Romaria dos Pretos. O gesto recorda a luta dos ancestrais e mantém viva a memória daqueles que transformaram sofrimento em resistência e esperança.
Para o padre Ibrahim Muinde, a participação da Igreja nesse espaço reforça o compromisso com as comunidades quilombolas e com a promoção da dignidade humana.
“A participação é uma caminhada que a Igreja vem se esforçando para fazer e acontece em um momento importante de atualização dos documentos da Pastoral Afro-Brasileira e do estudo sobre a relação da Igreja com as comunidades quilombolas. Isso reforça o compromisso da Igreja junto a essas comunidades e mostra que essa luta precisa continuar sendo celebrada. As comunidades levam para a romaria suas conquistas, mas também suas dificuldades e desafios. A presença da Igreja fortalece essa aproximação, esse apoio e essa caminhada conjunta”, afirmou.

O sacerdote destacou, ainda, a importância do acolhimento promovido pelo Santuário do Bom Jesus da Lapa e a necessidade de manter viva a memória histórica da escravidão e da resistência dos povos negros no Brasil.
“Ir até o Bom Jesus é levar esse suor, essa caminhada, as lutas de cada território, os agradecimentos pelas vitórias e o reconhecimento do papel da Igreja nesse processo de abrir as portas para as comunidades quilombolas. Em alguns anos esse diálogo não estava sendo tão bem feito, mas, agora, temos o reitor do santuário, padre Roque, que desde a base já trabalhava com as comunidades e as acolhe, participando com todas elas”, destacou Muinde.
Uma das participantes e membro da coordenação PAB Arquidiocesana, Francisca das Virgens Fonseca também celebrou a presença e o apoio da Igreja junto ao povo negro neste evento tão expressivo e signiticativo.
“Esse é um momento em que fazemos memória, em que nos reunimos, com uma participação muito significativa. Para nós, das comunidades quilombolas, é muito importante sentir a presença da Igreja Católica neste momento de romaria”, disse.
Ao chegar à sua décima edição, a Romaria Quilombola reafirma sua missão de unir espiritualidade, memória e organização comunitária, fortalecendo a identidade dos povos quilombolas e renovando o compromisso com a justiça social, a preservação cultural e a defesa dos territórios tradicionais.
Assessoria de Comunicação – ASCOM
Arquidiocese de Feira de Santana




